O “baptismo” do novo presidente foi um ritual para mostrar uma transição pacífica

Pelo seu simbolismo e contexto macroeconómico, o acto de "baptismo" de João Lourenço tinha tudo para ser mais do que um mero "ritual constitucional".

O dia das honras do Presidente da República eleito estava predestinado para ser de festa Quem esteve na Praça da República, nesta terça-feira (26), queria uma oportunidade para assistir a uma passagem histórica de testemunho político, ver de perto o começo de uma nova era de governação e o "emergir" do novo titular do poder executivo.

 

O país "parou" e seguiu atento, durante duas horas e meia, a um acto de transição pacífica e democrática, que marcou, também, o fim dos 38 anos do mandato do Presidente da República cessante, José Eduardo dos Santos.

 

A cerimónia solene, assistida ao vivo por cerca de 40 mil pessoas e transmitida para milhões de telespectadores, teve "adrenalina", suspense e emoção.

 

Como se esperava, foi por altura do juramento constitucional de João Lourenço e da imposição do colar presidencial que o ambiente "esquentou".

 

Mas o clima de festa começou bem antes da chegada dos protagonistas principais.

 

Correria nos bastidores

 

Nos arredores da Marginal de Luanda, o entra e sai de pessoas e carros era constante. Desde as seis da manhã, os caminhos davam à Praça da República, contígua ao Memorial António Agostinho Neto, bairro da Quinanga, distrito urbano da Ingombota. Em algumas horas, a rotina do dia-a-dia estava quebrada e a praça apinhada de gente.

 

A segurança era rigorosa, com milhares de polícias e militares em pontos estratégicos. Na tribuna e no relvado da Praça da República, os convidados de honra e os cidadãos comuns aguardavam ansiosos, apesar do chuvisco que também dava o ar da sua graça. Ao princípio da tarde, o sol abriu, mas nem isso afugentou o povo, que desceu em massa à Nova Marginal de Luanda, num dia especial de tolerância de ponto.

 

A curiosidade em ver chegar o novo chefe de Estado e a Primeira-dama tomava conta de adolescentes, jovens, adultos e idosos. Todos queriam viver a celebração, o acto da transição. Controlar a euforia não era uma missão espinhosa, mas exigia atenção até para quem, como os agentes da polícia, estão tarimbados para "controlar" multidões.

 

A intensidade da festa aumentou, quando se aproximou a comitiva presidencial. Eram 11:45. José Eduardo dos Santos chegou e passou em revista às tropas, em parada.O Presidente da República cessante não parecia tenso, no último dia do seu mandato.

 

Antes dele, chegara o Vice-Presidente da República cessante, Manuel Vicente. Alguns minutos antes, já havia chegado o Vice-Presidente da República eleito, Bornito de Sousa, e cinco minutos depois o Presidente da República eleito, João Lourenço.

 

Todos foram recebidos pelo juiz conselheiro do Tribunal Constitucional (TC), e pelo director do cerimonial da Presidência da República, antes da acomodação na tribuna.

 

Momento histórico

 

A histórica cerimónia de investidura começou com o hino nacional, executado pela Banda de Música da Guarda de Honra Presidencial.

 

Seguiu-se um minuto de silêncio, uma breve intervenção do juíz conselheiro presidente do TC, Rui Ferreira, e a apresentação do guião da cerimónia. Fez-se a seguir a leitura dos dados biográficos de João Lourenço e a transcrição da declaração da Comissão Nacional Eleitoral que o proclamou Presidente da República. Depois, o presidente do TC convidou o Presidente da República eleito para fazer o juramento constitucional, com a mão direita aposta à Constituição da República.

 

Estava dado o primeiro passo da transição. Mas a cerimónia estava longe do fim. Após a leitura do termo de posse, pelo presidente do TC, o novo Presidente da República assinou o termo de posse e os respectivos termos individuais. O juiz conselheiro rectificou os documentos, antes do momento mais alto do acto.

 

Depois de saudado pelo presidente do TC, João Lourenço deslocou-se até ao local onde se encontrava o Chefe de Estado cessante.

 

José Eduardo dos Santos, que chegou ao poder a 21 de Setembro de 1979, após a morte do fundador da Nação, António Agostinho Neto, colocou o colar presidencial no pescoço do seu sucessor, a quem saudou antes da esperada troca de lugares.

 

Estava feita a história e concretizada a transição política, pacífica e democrática. Na tribuna de honra e em toda Praça da República, uma enorme euforia se registou. As mais de 40 mil pessoas presentes no acto aclamaram João Lourenço e, com cânticos sonantes, gritaram "Lourenço, amigo, o povo está contigo".

 

A cerimónia seguiu com o mesmo formato, mas agora com outro protagonista. À semelhança de João Lourenço, o presidente do TC conferiu posse ao Vice-Presidente da República eleito, Bornito de Sousa, antes de proferir o discurso de felicitações.

 

O segundo discurso já teria um sabor especial. Pela primeira vez, João Lourenço soltou a voz nas vestes de chefe de Estado e falou à nação sobre como pensa mudar o país.

 

Tributo ao comandante-em-chefe

 

A histórica cerimónia de terça-feira já quase tinha queimado os “últimos cartuchos”. Mas, para saudar o novo Comandante-em-chefe das Forças Armadas Angolanas, os três ramos das Forças Armadas desfilaram. João Lourenço assistiu em pé.

Se a festa da transição começou em alta, tinha de terminar também em grande estilo. Ao "cair do pano", outra vez a entoação do hino nacional, em simultâneo com 21 salvas de canhão. Estava criado o cenário para a saída apoteótica do novo Presidente da República, chefe de Estado e titular do poder executivo em Angola.

 

João Lourenço deixou a Praça da República pouco depois das 14 horas, acenando à população e com um tímido sorriso nos lábios, em direcção à sua nova moradia, o Palácio Presidencial, onde se fará o encerramento do programa num ambiente de festa.

ANGOP