João Lourenço tem um sonho, mas será ele o Presidente do “milagre económico”?

Quando era candidato, João Lourenço fez um parêntesis na imagem de modéstia que sempre cultivou: “Gostaria de passar para a história como o homem do milagre económico de Angola”, ousou dizer. O antigo general quer fintar a crise que afecta Angola e imitar o estilo reformista do antigo líder chines Deng Xiaoping, além de acabar com a pobreza extrema e elevar mais de metade da população à classe média. Como conseguirá tudo?

"Como diz o nosso lema, vou melhorar o que está bom e corrigir o que está ruim", prometeu o recém-eleito Presidente de Angola antes das eleições, quando era cabeça-de-lista do MPLA, partido que está no poder há 38 anos. "O Presidente Agostinho Neto lutou e conseguiu a independência para o nosso país, o Presidente José Eduardo dos Santos trabalhou para a paz e a reconciliação entre os angolanos, entre outras coisas de bem que fez, e a minha missão será melhorar a economia do nosso país”.

 

Se Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos são as duas figuras maiores da Angola moderna, então João Lourenço, nas suas próprias palavras, parece não querer ficar atrás, daí que, após os elogios aos homens que lhe abriram caminho, disse logo ao que vinha: “Se me permitem a expressão, sem querer ser muito sonhador, eu gostaria de passar para a história como o homem do milagre económico de Angola. Eu irei perseguir esse objectivo", prometeu. Mas, afinal, qual a varinha de condão que vai usar para o conseguir?

 

A crer na análise feita pela consultora internacional BMI Research, ligada ao Grupo Fitch, a eleição de João Lourenço significa, contudo, "mais do mesmo em termos de política económica”, referem os seus analistas à agência de notícias Lusa. Entre os principais riscos para o futuro do país, já com o novo Presidente ao leme, está o perigo de “os preços do petróleo não recuperarem, colocando pressão acrescida na taxa de câmbio oficial”, sendo que “as desvalorizações da moeda pelo Governo aumentariam os custos da dívida externa, aumentando o risco de incumprimento financeiro”, frisa a BMI.

 

Com mais de 1,6 milhões de barris de petróleo produzidos por dia, o que faz de Angola o maior produtor de África, superando a Nigéria, a verdade é que as suas receitas, vitais para os cofres públicos do país nos últimos 15 anos, têm vindo a descer desde 2014, por causa da queda, a nível internacional, dos preços dos combustíveis. Entretanto, e a crer nos principais indicadores estatísticos existentes, a nação continua a ser uma das mais pobres do mundo, isto enquanto tem de lidar com uma crise financeira, económica e cambial, da qual tenta sair com uma maior diversificação económica, principalmente através da agricultura.

 

Durante a corrida eleitoral, os principais adversários de João Lourenço, e como seria de esperar, aferraram os dentes em torno dos temas económicos, com um dedo apontado à pobreza endémica que ainda afecta Angola. "Vocês que sofrem, que estão na pobreza, sem energia eléctrica, sem emprego, sem nada que comer: a mudança é agora", repetiu várias vezes o candidato da UNITA, Isaias Samakuva. Já o candidato Abel Chivukuvuku, do partido Casa-CE, denunciou com insistência a existência de corrupção nos governos MPLA.

 

 

Fazer fé no investimento estrangeiro… e em Deng Xiaoping

 

Para se escudar destes ataques, o antigo ministro da Defesa usou como justificação os anos de guerra civil que Angola atravessou, conflito que só cessou em 2002 e que, nas palavras de João Lourenço, "aprofundou a pobreza que já existia no país".

 

"Temos fé que Angola também vai dar a volta por cima e conseguir os recursos para desenvolver o país", vaticinou em Março deste ano, mas sem especificar, conforme explicou na altura a agência Lusa, a forma como pretende concretizar o prometido milagre económico. Contudo, João Lourenço admitiu que uma das suas apostas será a atracção de investimento estrangeiro, com o intuito de transformar Angola “do ponto de vista económico e social”.

 

Entretanto, no final de Agosto, já após os resultados provisórios que o apontavam como novo inquilino do Palácio Presidencial, e numa entrevista à agência espanhola EFE, afiançou que seria um reformador ao estilo do que a China teve na década de 1980: "Reformador? Vamos trabalhar para isso, mas certamente não [Mikhail] Gorbachev [o último líder da União Soviética], Deng Xiaoping, sim”.

 

Xiaoping tornou-se, em 1978, líder do governo da potência asiática, das suas forças armadas e do Partido Comunista Chinês, tendo ficado na história como o arquitecto de uma nova abordagem que misturava a ideologia socialista com a economia de mercado, no que ficou conhecido como o “socialismo de mercado”. Para esse fim, normalizou as relações diplomáticas e comerciais com os países mais ricos do Ocidente, abriu o país ao investimento estrangeiro, liberalizou a economia e promoveu um sistema de concorrência.

 

Segredo está na classe média?

 

"Todos os países têm ricos e pobres, Angola não é uma excepção. Mas, o ideal nessa divisão da sociedade é haver equilíbrio, e quando me refiro a equilíbrio quero dizer alargar substancialmente o número de cidadãos que saem das condições de extrema pobreza, que saem da condição de pobres, e que passam a integrar uma classe média". A tese e o compromisso saíram da boca do candidato João Lourenço, em Março, o qual aproveitou o momento para elevar bem alto a fasquia, dizendo que pretende ter 60% da população angolana (de 25 milhões de pessoas, a crer nos censos de 2014) dentro da chamada classe média. Uma promessa corajosa.

 

"Uma das nossas preocupações, depois de agosto [eleições gerais], será precisamente, não digo criar, mas procurar ampliar ao máximo essa classe média angolana, à custa da redução dos pobres (…) Fazer com que a classe média seja superior à soma dos pobres e dos ricos", adiantou. "Temos a tarefa de tirar o maior número possível de cidadãos da pobreza.”

 

Para colocar em marcha este objectivo, o Presidente da República disse querer colocar a diplomacia angolana ao serviço da economia, com uma aposta nas relações comerciais com os países africanos e a captação de investimento privado externo. "Mas, sem prejuízo das grandes empresas, queremos privilegiar o surgimento das micro, pequenas ou médias empresas", salientou.

 

 

Esposa de João Lourenço poderá dar uma “ajuda” com a dívida

 

Nascido a 5 de março de 1954, no Lobito, João Lourenço cresceu no seio de uma família muito comprometida politicamente, mas o seu percurso político pautou-se pela discrição, destacando-se mais pela enorme lealdade que sempre demonstrou para com o MPLA. Apesar da humildade, não teve pudor em dizer, em fevereiro passado, quando anunciou oficialmente a sua candidatura, que “há tempos que me preparo para este cargo”. Eis, portanto, outra arma política do novo Presidente de Angola: a paciência, igual à que os jogadores de xadrez da antiga União Soviética, país onde estudou, sempre tiveram.

 

Conforme indica Alex Vines, do think-tank britânico Chatham House, à agência AFP, "ele é respeitado pelos militares, não tem o comboio de vida de outros hierarcas e a sua esposa tem uma boa reputação de tecnocrata”.

 

Eis que chegamos ao que poderá ser outra das peças fundamentais do xadrez económico de Angola. Falamos de Ana Dias Lourenço, companheira indissociável do novo Presidente, economista com larga experiência governativa que conta, no seu currículo, com vários anos de convivência no seio da burocracia do Banco Mundial, a que se junta a presidência, em dois momentos diferentes, do Conselho de Ministros da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral.

 

Tudo somado, “com a competência, o rigor e a experiência que reúne, não é mulher para se acomodar à sombra do marido”, diz Lima Campos, antigo vice-governador do Banco Nacional de Angola, ao semanário português ‘Expresso’.

 

As necessidades do futuro imediato assim o poderá ditar, pois, tal como vaticina o semanário português ‘Expresso’, num extenso artigo dedicado a João Lourenço, “o capital de experiência governativa acumulada por Ana Dias Lourenço pode vir a ser de extrema utilidade quando o marido for obrigado a negociar com a China a elevada dívida com a carteira de empréstimo de Angola”.

 

SAPO com agências

João Pedro Lobato